Entrevista com CPM 22: Luciano Garcia fala sobre novo álbum, relação com os fãs e mudanças no cenário musical

Imagem Divulgação

Nascida em São Paulo, em 1995, a banda CPM 22 se tornou um dos principais expoentes do rock nacional nos anos 2000. Junto a outros nomes como Pitty, Charlie Brown Jr. e Detonautas, a banda de hardcore paulista integrou uma geração que fez história com o gênero no país, com discos de ouro, trilha sonora em novela e até um Grammy Latino de melhor álbum de rock brasileiro.

Há 22 anos na estrada, a banda, hoje formada por Badauí, Japinha, Luciano, Fernando e Phil, segue com um público fiel, que mesmo em meio às mudanças no cenário musical maistream, acompanham cada passo dos integrantes. Um choque de gerações que encontram nas músicas do CPM 22 um ponto em comum.

 

Em abril, a banda lançou pela Universal Music o seu sétimo álbum em estúdio, intitulado “Suor e Sacrifício”. O guitarrista Luciano Garcia conversou com o Portal da Música e contou detalhes da mais recente produção, além de comentar sobre a relação com os fãs e todas as mudanças que acompanharam o CPM 22 ao longo de toda a trajetória. Confira abaixo:

Foram 6 anos desde o lançamento do último álbum de inéditas do CPM 22. Qual foi a sensação de voltar ao estúdio para gravar um novo material depois desse tempo todo?

O nosso último (disco) de inéditas tinha sido em 2011. Em 2013 lançamos o acústico com 4 inéditas, mas em outro formato. Teve também o CD e DVD do Rock in Rio e o CD de 20 anos, com 1 inédita. E olha, eu achei que foi benéfico. Com o tempo vamos aprendendo que um espaço entre um disco e outro é melhor para renovar as influências, renovar as idéias de letras. Na verdade, o “Suor e Sacrifício” era pra ter sido lançado em 2016, tanto que durante o show no Rock in Rio, as composições do disco já estavam praticamente prontas, só faltava ensaiar a gravar. Mas com toda a repercussão do show, as equipes da gravadora e do festival decidiram lançar esse material antes, e nisso, foram mais alguns meses. Nós tivemos que controlar um pouco a ansiedade, mas no fim, acho que foi importante e melhor assim!

E comparado aos discos anteriores, como você avalia o “Suor e Sacrifício”?

Ele é essencialmente punk rock. No nosso último disco, “Depois de um longo inverno”, a gente até passeou um pouco pelo ska punk, mas esse álbum eu acho que é 100% punk. Acredito que o que difere ele dos demais, é a questão de ter um pouco mais de skate punk, como a música “A Cruz”, que é uma vertente do punk rock, da qual ainda não tínhamos explorado muito. E a questão de ter dois guitarristas de novo, que me fazia uma puta falta. Eu como guitarrista sentia muita falta de outra guitarra. As músicas do CPM são compostas para duas guitarras e acho que isso mudou bastante. Tanto que eu deixei o Phil fazer a maioria dos solos e eu os arranjos de guitarra, pra ficar diferente das coisas que eu fazia. E tem a volta do Fernandinho pro baixo também, né?!  Nós ganhamos um baixista, um produtor, um engenheiro de som (risos) e um grande amigo, que nunca deixou de ser, mas que está próximo de novo.

O show no Rock in Rio em 2015 foi um grande marco na carreira do CPM 22. Você sabe que vários artistas nacionais já se arriscaram no palco do festival e não tiveram uma boa recepção do público. Pra você, foi uma surpresa toda a repercussão que teve?

É… Isso que você acabou de falar, das bandas que já passaram por experiências não muito boas, me rendeu 1 ano de frio na barriga, velho (risos). Eu lembro de chegar nos lugares e me falavam:  “Oh, vocês vão tocar no Rock in Rio”. Eu dizia: “Pelo amor de Deus, não fala disso, eu não quero começar a sofrer agora” (risos). Mas foi um grande desafio. Primeiro por tocar no palco Mundo, segundo por tocar num dia que não era 100% favorável, né?! System Of a Down, Queens of the Stone Age não é muito a praia do CPM. Eu adoro as duas bandas, mas principalmente para aquele público um pouco mais radical… Mas a gente gostou do desafio. Falamos: “Vamos lá! Vamos fazer o nosso show e ver no que dá”. E cara, a recepção foi muito melhor do que a gente esperava. Cantaram todas as músicas, gritaram o nome da banda. Eu até me arrepio ao lembrar. 30 anos de Rock in Rio e 20 anos de CPM 22, tudo parece que calhou para ser O DIA do CPM tocar no festival.  Nós ouvimos isso também da produção. No fim do show, teve gente que falou: “Olha, banda nacional aqui é 8 ou 80. Ou sai de cabeça baixa, ou sai maior do que já era”. E a gente se sentiu muito mais fortalecido. Foi muito legal e um motivo de muito orgulho!

Nesses 22 anos de estrada vocês acompanharam diversas mudanças, tanto no cenário musical, quanto essas mudanças tecnológicas que acabaram impactando também no mercado. Hoje, com tanta informação, acaba sendo difícil para um artista se estabelecer por muito tempo. É sempre tudo muito passageiro. Como foi pra vocês, que pegaram uma época onde se vendiam milhões de discos, migrar para uma nova realidade, agora do digital, com essa velocidade de informação?

Eu acho que, como tudo, tem os seus pós e contras. O disco hoje chega muito mais rápido na casa das pessoas. Você lança o disco hoje, e amanhã já está todo mundo cantando as músicas. A parte de divulgação ajuda muito, o acesso às pessoas também. Mas tem os contras também, que como você disse, é tudo muito rápido. A gravadora, por exemplo, queria que gravássemos um disco de 10 músicas, porque ninguém mais ouve um disco inteiro. Mas nós falamos: “Não, mas eu ouço. E outra, a gente não lança um disco desde 2011 e agora vai lançar um com 10 músicas, sendo que tinham 22 prontas?!”. Verificamos o máximo de músicas no CD físico, que eram 14, e inserimos o máximo. E no digital, colocamos 16. Quem não quiser ouvir, ok! Mas e aquele fã que está esperando há 6 anos para ouvir o disco?! Acho importante, é como um presente. Outro pró também é a proximidade com os fãs, que é muito maior hoje em dia. A gente só precisa saber aproveitar e usar ao nosso favor.

A música também mudou bastante nesses anos. Hoje, o sertanejo, o funk e o pop estão dominando as paradas, e o rock, infelizmente, está cada vez mais distante da mídia. Como conseqüência, temos visto bandas e casas importantes no cenário do rock encerrarem as atividades. Como você enxerga isso?

Tudo é altos e baixos. Eu só acho engraçado que, ao mesmo tempo em que falamos que o rock está em baixa, o cara faz um festival como o Rock in Rio e esgota tudo em uma semana. O Marcelo Rossi faz o João Rock em Ribeirão, e também esgota, só com banda de rock. Acabamos de voltar de uma turnê no Nordeste com cinco shows lotados. A gente olha e fala: “cara, o que está acontecendo? Público tem!”. A gente percebe que o espaço na mídia realmente diminuiu bastante. Agora está muito mais difícil, pois a grande mídia deixou o rock um pouco de lado. Mas eu acho que as bandas também colaboraram muito. Hoje elas entram em estúdio já pensando em quantos views terão no youtube, ou quantos followers terão nas redes sociais. Cara, a gente montou uma banda porque gostávamos de tocar. Eram cinqüenta ensaios para dois shows.  A gente acreditava no som. Eu percebo que hoje é mais “vamos fazer o que está dando certo”. Mas e a essência? E a base? Isso é muito importante e não vejo mais, então acho que colabora também para o enfraquecimento do rock.

Assim como vocês, os fãs também amadureceram. Muitos hoje já são casados, tem filhos, e com isso também vêm as mudanças nos gostos. Existe uma preocupação do CPM 22 em atender tanto as expectativas dos fãs novos, como também desses que cresceram com vocês?

O nosso consenso é fazer o que gostamos. Se você começa a se preocupar em agradar a todos, vai acabar não agradando ninguém. Nós, obviamente, nos preocupamos com a nossa evolução, mas é algo natural. Vem com a idade, com o tempo, com as experiências de vida de cada um. Como você disse, dos cinco da banda, quatro já são pais, e isso já muda a nossa maneira de ver muitas coisas. Com os fãs a mesma coisa. E é legal ter abordado isso, pois ao mesmo tempo em que os nossos fãs estão crescendo, a gente tem feito muito show em formatura, por exemplo. Uma galera de 22, 23 anos. Ou seja, o público está se renovando. A gente toca “Tarde de Outubro”, de 2002, e todo mundo canta do começo ao fim. Eu acho que ser verdadeiro em tudo o que você faz, acaba transparecendo e dando certo.

Quais os próximos passos da banda?

Shows, turnê. Nem estamos pensando muito no próximo passo, pois demorou tanto pra dar esse. Agora é ir para a estrada. Graças a Deus a agenda está cheia. É seguir nessa! Turnê Suor e Sacrifício e vamos ver até onde vai!

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