Nesta quinta-feira, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, um novo expoente feminino da música brasileira nos presenteia com o seu disco de estreia. A carioca Tais Alvarenga é cantora, compositora, pianista e uma das novas promessas da cena indie/alternativa musical.

Após ser parte de trilha sonora de novela na Rede Globo e apresentar ao público as faixas “Você se Enganou”, “Esse Lugar” e “Tudo”, que falam sobre o amor de complexas formas, a artista lança, não por acaso no Dia da Mulher, o seu álbum de estreia “Coração Só”, composto por 16 canções autorais que mostram sua entrega e força.

Sob a produção de Pupillo – baterista, compositor de trilhas sonoras e produtor musical, membro da banda Nação Zumbi, e Carlos Trilha, instrumentista e produtor musical que já trabalhou com nomes como Renato Russo, o projeto autobiográfico narra a montanha-russa emocional das relações amorosas.

Em entrevista ao Portal da Música, Tais Alvarenga falou sobre o processo de produção de “Coração Só” e também comentou comentou a luta que as mulheres tem enfrentado pelo seu espaço. Confira o bate-papo na íntegra:

Antes de falarmos do seu novo trabalho, nos conte um pouco sobre a sua trajetória musical até aqui.

A música sempre foi uma força incompreensível em mim. Não tenho músicos na família e não tive uma educação voltada para a música. Mas, ao mesmo tempo, a música foi o que me fez encontrar o meu espaço no mundo. Me apresento desde criança, algumas vezes já tocando piano. Tive muita experiência em coral na infância. Cantei em diversas bandas diferentes, trabalhei em musicais do Oswaldo Montenegro. Sou formada em Trilha para Filme e Voz na Berklee College of Music. Estudei regência, composição, Jazz, entre outras coisas. Tive aulas com grandes nomes da música como Bob Mc Ferrin, Cezar Camargo Mariano, John Mayer. Participei de um projeto de novos compositores pela Universal. Lancei uma faixa com Gabriel Pensador. Tive uma faixa lançada na novela “Verdades Secretas”. Registrei minhas músicas em tempos diferentes e de formas diferentes, mas somente agora me sinto pronta para lançar meu primeiro disco. Ufa!

E quais são as suas principais referências na música?

Fiona Apple, Elis Regina, Nina Simone, Alt J, Jimmy Hendrix, Amarante, Portishead, Beyonce, Egberto Gismonti, Stravinsky, entre muitos outros.

Como foi o processo de criação de “Coração Só”?

Foi intenso. As músicas foram compostas em momentos diferentes, mas todas totalmente à flor da pele. E eu diria que os arranjos também foram feitos com muito sentimento. O importante neste processo era que a força da narrativa e a minha sensibilidade quanto cantora e compositora permanecessem nas gravações, vídeos, e futuramente estejam nos shows, da forma mais genuína possível.

99% das músicas do álbum são composições suas e narram histórias de amor, com seus altos e baixos. Todas são baseadas em experiências próprias? Como funciona esse processo de composição para você?

Sim, são experiências próprias. A maioria dessas músicas chegaram para mim de um jeito muito instintivo, quase que inteiras. Muitas vezes eu recebo inspirações em momentos diversos; no meio de um restaurante durante uma conversa. Mas acredito que esse canal precisa ser trabalhado. Gostaria de conseguir compor todos os dias, ainda não tenho essa prática. Mas não tenho cerimônia para compor. Qualquer hora é hora. Gosto do silêncio e do contato com a natureza. Costumo dizer que são para mim como uma tela branca para um pintor.

Como foi trabalhar com o Pupillo, do Nação Zumbi, na produção desse material?

Foi incrível! Eu estava precisando encontrar alguém que tem tanto respeito pela música. Pupillo briga pela música em primeiro lugar, independente do resto. Somos duas personalidades fortes, tivemos discussões muito ferrenhas sobre o caminho do trabalho. E eu estava feliz da vida de estar ali, sabendo que estava com um monstro da música, um profissional que não mede esforços pelos seus ideais. Viveria tudo novamente.

Algumas músicas, como “Ainda Penso”, foram gravadas novamente, com uma nova roupagem para o disco de estreia.  O que essas novas versões refletem, agora, nessa nova fase de sua vida?

Neste disco, especificamente, as músicas ganharam força com as baterias do Pupillo. Sinto que elas ficaram mais maduras também.  “Ainda Penso”, na minha opinião, tem uma das suas melhores versões. As baterias do Pupillo junto com o piano formam uma repetição meio cortante e, ao mesmo tempo, quase irônica por ter a letra que tem. Com relação a fase atual da minha vida, acho que o tempo me fez entender algumas coisas que eu havia escrito. Letras e frases que eu não tinha consciência do que realmente significavam. Eu canto de um jeito muito mais objetivo, diria até mais maduro.  

O cenário musical brasileiro, para as mulheres, mudou bastante dos últimos anos para cá. Como você enxerga essa ascensão de artistas femininas na música?

É emocionante para todos nós ver as mulheres ganhando espaço na música. Mas em todas as outras áreas também. Temos no Brasil mulheres fortes, de muito talento e determinação. E, mesmo assim, elas chegam em posições importantes com muito esforço. Eu gostaria que o fim dessa frase não estivesse aí; “com muito esforço”. É porque ainda temos um caminho longo pela frente. Não só para as que sobem num palco. O corpo da mulher ainda é um objeto sexual fortíssimo. E muitas mulheres não abdicam disto. Ainda somos cobertas de parâmetros que nos limitam. A mulher ainda está no inconsciente dos homens como uma classe não tão capaz. E nada, nem a roupa, nem a forma de agir, nem com quantas pessoas resolvemos sair, nada define se somos melhores ou piores. Somos livres para sermos o que quisermos. Podemos ser mais novas e saber mais. Podemos ser lindas e ao mesmo tempo inteligentes. Podemos ser mães e tão capazes quanto os homens. Que nada nos impeça de existir com nosso potencial máximo.

Lançar o disco no dia Internacional das Mulheres tem alguma relação com isso?

Com certeza. Este é um disco que tem sua força na intensidade e na profundidade de sentimentos. No auge do discurso onde a mulher precisa ser poderosa, e muitas músicas relatam a mulher poderosa como a que “pisa” nos homens, vai para a balada dançar até o chão. Venho dizer sobre as mulheres e seres humanos no geral que amam e são verdadeiros, nobres, bondosos e sofrem com essa maneira rápida e descartável dos tempos de hoje. Um amor verdadeiro não será esquecido “tomando umas” na balada. A mulher tem direito de ser profunda. Que as nossas verdades não sejam só um lapso no meio desse mar de mentiras. Que as mulheres fortes sejam aquelas que têm relações profundas e amam sem medo também.

Tem algum nome na música que você gostaria de trabalhar junto?

Rodrigo Amarante.

Qual a sua faixa predileta do álbum?

Eu amo “Esse Lugar”, amo “Duna”. Posso escolher duas? rs

Com o lançamento do disco, quais são os próximos planos?

Eu quero fazer show. O máximo de shows possíveis. Quero olhar nos olhos das pessoas que se identificam com este disco.